Opositores expulsos por cacique denunciam torturas em Ronda Alta
Grupo de pelo menos 10 famílias fugiu no fim de semana do território indígena da Serrinha
Publicado em 20 de outubro de 2021
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Um grupo de pelo menos 10 famílias fugiu no fim de semana do território indígena da Serrinha, situado entre os municípios de Ronda Alta e Engenho Velho, no norte do RS. Eles são opositores do cacique Márcio Claudino e foram expulsos em meio à troca de acusações sobre arrendamentos ilegais de terras e disputa pelo poder naquela área, onde vivem 1,8 mil índios caingangues.

Os boletins de ocorrência dão conta que os conflitos iniciaram há 14 meses, quando os opositores denunciaram envolvimento de Márcio Claudino com arrendamento clandestino da área indígena para lavoureiros de Ronda Alta. As informações foram repassadas ao Ministério Público Federal (MPF) e Polícia Federal (PF), já que o aluguel é proibido, porque as terras dos índios pertencem à União.

O cacique ficou furioso, negou os crimes e desde então o clima ficou tenso nas diversas aldeias que compõem a Serrinha. Na quinta-feira passada (14), um grupo de opositores protestou contra Claudino e foram detidos pelos seguidores dele, numa prisão improvisada - os índios possuem cadeias próprias para detenção de pessoas consideradas problemáticas.

Na falta de uma prisão verdadeira - a que existia na Serrinha queimou num incêndio no início deste ano, matando quatro indígenas - os opositores do cacique foram detidos no banheiro de um ginásio de esportes, na localidade de Alto Recreio.

Conforme relato deles, foram nove detidos num cubículo, por 22 horas. Eles dizem terem sido espancados e que ficaram sem alimentação e nem água. Fotos que tiraram mostram ferimentos diversos nas cabeças e nas costas, que teriam sido provocados por pauladas.

Ouvido por GZH, o cacique Claudino admite que mandou prender os opositores, "porque falavam em me matar", mas nega espancamentos. Mediante intermediação de um conselho de anciãos da tribo e da BM, além de habeas corpus impetrados na Justiça, os presos foram libertados e saíram da aldeia. Alguns ficaram abrigados em galpões num matagal das proximidades do Alto Recreio, usados para recreação.

A mais trágica confusão aconteceu no sábado (16). Os opositores do cacique se reuniram novamente e tentaram trancar a rodovia que liga Ronda Alta a Passo Fundo. Foram hostilizados por apoiadores do cacique, que teria ajudado a persegui-los - segundo relatos deles à reportagem e à Polícia Civil. Já a versão de Márcio Claudino é diferente. Ele garante que circulava próximo a uma lavoura com outros três índios, na sua caminhonete Hilux, quando foi vítima de uma emboscada. O veículo levou 27 tiros, mas os ocupantes não se feriram.

— Foi Deus que evitou, não era hora da minha morte — define o cacique.

Ele relata que seus apoiadores foram atrás dos atiradores e mataram dois caingangues, que seriam os autores dos tiros. Com eles, segundo Claudino, foram apreendidas mochilas com munição e duas espingardas. O material foi entregue à Polícia Federal, para perícia. Além disso, os liderados pelo cacique incendiaram uma casa e quatro veículos dos opositores, que fugiram pelas lavouras.

— O cacique liderou o ataque, disparou, mas agora fala que sofreu uma emboscada. Desconfiamos muito dessa versão — diz uma das opositoras de Claudino.

Os índios mortos não puderam ser velados no Alto Recreio, porque havia risco de confronto. Foram levados para sepultamento na Ventarra, outra aldeia indígena da região norte do RS. A tensão é tamanha que a Força Nacional de Segurança Pública, tropa de elite coordenada pelo governo federal, desembarca nos próximos dias na Serrinha, para patrulhar a região.

Fonte: Com informações do GauchaZH
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