Abastecimento de combustíveis oscila e afeta serviços em quase metade dos municípios gaúchos
Municípios buscam equilíbrio para evitar a paralisia de frotas e serviços básicos
Publicado em 04 de abril de 2026
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A engrenagem administrativa dos municípios gaúchos enfrenta um teste de resistência que transcende a mera eficiência de gestão. O óleo diesel, insumo fundamental para a manutenção da infraestrutura básica e para o suporte à produção rural, tornou-se o centro de uma crise que combina preços proibitivos e instabilidade no fornecimento. Um levantamento minucioso da Federação das Associações de Municípios do Rio Grande do Sul (Famurs), consolidado a partir das respostas de 215 prefeituras, revela que o Estado opera hoje sob um regime de contenção. De acordo com os dados da federação, 45% das administrações municipais já registram impactos diretos na prestação de serviços à população, desenhando um quadro de retração que ameaça o ritmo de desenvolvimento local.

O diagnóstico, embora técnico, é severo e aponta para uma vulnerabilidade estrutural. A normalidade do abastecimento, relatada por 56% das prefeituras, é acompanhada por uma sombra crescente de insegurança logística. Segundo o relatório da Famurs, 38% dos gestores enfrentam um fluxo irregular, marcado por oscilações que impedem o planejamento de médio prazo, enquanto a falta efetiva do combustível já atinge 6% das localidades. A crise não se manifesta apenas pela ausência física do produto, mas pela inviabilidade económica de sua aquisição. De acordo com o questionário preenchido pelos municípios, 86% das prefeituras apontam que os preços estão em patamares "elevados ou muito elevados", o que tem forçado o contingenciamento de frotas e a revisão de cronogramas.

Serviços em Retração

A distribuição dos impactos segue uma hierarquia de prioridades ditada pela urgência fiscal. De acordo com o levantamento setorial da Famurs, a área de obras é a mais atingida, concentrando 46% das reduções ou interrupções de serviço. A agricultura, base da economia regional, sofre reflexos em 25% das cidades pesquisadas, de acordo com os dados colhidos, comprometendo a logística de insumos e o escoamento da produção no interior.

Mesmo áreas sensíveis como a educação sentem o peso da alta. Segundo os dados da federação, 15% das prefeituras reportaram ajustes ou cortes no transporte escolar. Em uma parcela de 5% dos municípios, a situação atingiu um estágio crítico de "sobrevivência institucional", onde todos os setores foram impactados. De acordo com a Famurs, nesses casos, apenas atividades de urgência, como a saúde — que registra impacto direto em 4% das cidades —, permanecem em operação plena.

Pressão Internacional

O cenário gaúcho é indissociável da conjuntura global. De acordo com Vinicios Fernandes, diretor da Edenred Mobilidade, o mercado brasileiro permanece vulnerável à volatilidade do petróleo tipo Brent e aos conflitos no Oriente Médio. Segundo os indicadores da Edenred, em março de 2026, o diesel S-10 e o comum registraram avanços globais de 13,60% e 12,34%, respectivamente. No Rio Grande do Sul, embora o preço médio de R$ 6,62 para o diesel comum seja o menor do país, o reajuste mensal superou a marca dos 10%, de acordo com os índices regionais.

A estabilidade do abastecimento depende, fundamentalmente, da manutenção da paridade internacional. De acordo com Décio Oddone, ex-diretor geral da ANP, o Brasil importa cerca de 25% do diesel que consome. Segundo a análise técnica de Oddone, o risco de desabastecimento é mitigado se o preço interno acompanhar a cotação externa, garantindo a entrada de produto estrangeiro, ainda que a projeção seja de valores elevados por tempo indeterminado.

Perspectivas 2024-2025

Para o próximo exercício, a tendência é de que o diesel continue a ser o principal gargalo inflacionário para os orçamentos municipais. Especialistas em comércio exterior, como Rodrigo Giraldelli, enfatizam a necessidade de revisão frequente das planilhas de custos. De acordo com as recomendações de Giraldelli, os gestores devem monitorar o câmbio sem alarmismo, visto que a alta da moeda americana ainda é considerada moderada para fins operacionais.

"A alta contínua do preço do diesel preocupa porque atinge diretamente a capacidade de prestação de serviços", resume Adriane Perin de Oliveira, presidente da Famurs. O desafio para o biênio 2024-2025 é operar em um cenário de margens extremamente estreitas. Sem estabilização de preços ou medidas compensatórias, a tendência é de que a redução de serviços se torne estrutural. O futuro do abastecimento no Rio Grande do Sul, de acordo com o panorama atual, depende menos da escassez física e mais da capacidade financeira dos municípios de sustentar o custo de sua própria movimentação.

 

 

 

Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Fonte: Correio do Povo
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