Além da interrupção de contratos de exportação e retenção de embarques da carne de frango e derivados, medidas adotadas por importadores desde meados de maio, com a confirmação do foco de Influenza Aviária de Alta Patogenicidade (IAAP) em uma granja comercial em Montenegro, no Vale do Caí, o setor avícola gaúcho deverá enfrentar outras consequências do episódio envolvendo a patologia.
Nota técnica do Departamento de Economia e Estatística (DEE), da Secretaria de Planejamento, Governança e Gestão, divulgada nesta segunda-feira, 23, indica outros possíveis impactos sobre a avicultura do Rio Grande do Sul e até mesmo nacional, a maior parte decorrente da suspensão das exportações.
A decisão “gera impactos econômicos e operacionais imediatos sobre a cadeia avícola, com destaque para a interrupção de contratos internacionais e a consequente necessidade de retenção ou redirecionamento de cargas para o mercado doméstico, potencialmente pressionando os preços internos no curto prazo”, afirma o texto assinado pelos pesquisadores Ricardo Leães e Sérgio Leusin Jr.
Primeiros sinais
Os pesquisadores salientam que “os primeiros sinais de impacto econômico” se deram com a pressão sobre os preços domésticos de frango congelado, que registraram queda de 5,3% do dia 27 para o 28 de maio de 2025, a maior variação diária do ano, seguida por declínios consecutivos, que levaram o preço de R$ 8,65 para R$ 7,38 em duas semanas.
A “mudança abrupta” na atividade provoca alta de custos logísticos e de armazenagem, além de aumentar o risco de perdas operacionais em frigoríficos e granjas. Cerca de uma semana depois do início do vazio sanitário, outra granja comercial localizada na área do foco, por exemplo, promoveu o sacrifício de 61 mil frangos.
Os animais, saudáveis, foram mortos em razão da restrição de movimentação e, portanto, de comercialização. “Municípios com elevada dependência da avicultura podem experimentar retração de receitas e efeitos negativos sobre o emprego local”, acrescenta o estudo.
Por fim, observa-se um risco associado à deterioração da imagem sanitária do setor avícola nacional, que pode afetar a confiança de mercados externos, mesmo em unidades federativas não diretamente impactadas pelo foco. Isso ocorreu com Paraná e Santa Catarina, estados que, junto com o RS, lideram a produção de carne de frango no país.
Ajuste na oferta
Leães e Leusin indicam que sanções internacionais ao produto brasileiro tendem a gerar ajustamentos na oferta. “No curto prazo, é possível a reorientação da produção para o mercado interno, porém a redução da demanda externa tende a limitar a produção no médio e no longo prazo em um cenário de continuidade da restrição externa”, diz o texto.
Por fim, a nota técnica destaca que o encerramento do vazio sanitário, “embora constitua um passo crucial para demonstrar o controle da situação, não se traduz automaticamente na retomada imediata dos mercados internacionais.
A experiência internacional indica que a recuperação da confiança comercial é um processo gradual, que demanda negociações bilaterais específicas e pode apresentar diferentes cronogramas conforme o país importador”.
Para acelerar o processo, conforme o estudo, se faz necessário uma atuação articulada entre setor público, setor privado e instâncias diplomáticas para a contenção dos efeitos econômicos e a preservação dos mercados.
Veja o estudo completo aqui.
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